SERVIDORES DA EBSERH CRUZAM OS BRAÇOS E ESCANCARAM: GOVERNO FEDERAL VIROU “MOBRAL” EM GESTÃO PÚBLICA
Os servidores, representados por sindicatos como os Sindserh’s, FENEPSERH e Condsef/Fenadsef, argumentam que a proposta da empresa — limitada a 80% do INPC como reajuste e sem avanços significativos no vale-alimentação ou em outras cláusulas sociais — não recompõe as perdas salariais acumuladas nem garante condições dignas de vida para as famílias.
Marcello D'Victor
4/2/20264 min read


Brasília — Trabalhadores dos hospitais universitários federais geridos pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), agora rebatizada como HU Brasil, deflagraram greve nacional a partir de 30 de março de 2026. A paralisação, aprovada em assembleias da categoria, atinge dezenas de unidades em pelo menos dez Estados e tem como principal motivo a insatisfação com a proposta econômica apresentada pela empresa para o Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) 2026/2027.
A EBSERH/HU Brasil é uma estatal vinculada ao Ministério da Educação (MEC) responsável pela gestão de 45 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação. A rede emprega mais de 54 mil trabalhadores, que atuam na assistência direta à população pelo SUS, na formação de profissionais de saúde e em pesquisas de alta complexidade.
Posições dos envolvidos
Do lado dos trabalhadores — Os servidores, representados por sindicatos como os Sindserh’s, FENEPSERH e Condsef/Fenadsef, argumentam que a proposta da empresa — limitada a 80% do INPC como reajuste e sem avanços significativos no vale-alimentação ou em outras cláusulas sociais — não recompõe as perdas salariais acumuladas nem garante condições dignas de vida para as famílias. Eles enfatizam que estão na linha de frente do SUS, resolvendo problemas concretos da saúde pública sem o reconhecimento proporcional ao seu esforço.
“Os trabalhadores não aguentam mais serem desvalorizados pela EBSERH. Chega de promessas não cumpridas, de descaso e de falta de respeito com quem sempre esteve na linha de frente”, afirmam manifestantes em Brasília.
Da empresa — A direção da HU Brasil informa que permanece em negociação no Tribunal Superior do Trabalho (TST) e que apresentou proposta econômica. O vice-presidente Daniel Beltrammi classificou a greve como “irresponsável” e “uma espécie de anarquia”, declaração que provocou forte reação da categoria.
Do Governo — Como acionista controlador por meio do MEC, o governo federal acompanha as negociações centralizadas em Brasília. Até o momento, não há manifestação pública específica do Ministério da Educação sobre o impasse.
Mobilização se espalha pelo país
A adesão é variável conforme a unidade, mas já foi registrada em vários Estados:
No Rio Grande do Norte, três hospitais (Onofre Lopes, Januário Cicco e Ana Bezerra) tiveram atendimentos ambulatoriais, exames e cirurgias eletivas parcialmente suspensos.
Em Sergipe, servidores do HU-UFS em Aracaju e Lagarto paralisaram atividades.
Em Pernambuco, trabalhadores do HU-Univasf, em Petrolina, aderiram à greve nacional.
Em Minas Gerais, no HU-UFJF (Juiz de Fora), a adesão chegou a 70% na administração e 30% na assistência.
Em todos os casos, os sindicatos afirmam que serviços essenciais estão sendo mantidos, com escalas de plantão preservadas para não prejudicar atendimentos de urgência e emergência.
Foco em Brasília: manifestação na sede da empresa
O epicentro simbólico da mobilização está na capital federal. No dia 31 de março, o Sindserh-DF organizou caminhada e ato em frente à sede da EBSERH/HU Brasil e no Hospital Universitário de Brasília (HUB). Trabalhadores carregavam faixas e cartazes contra o que chamam de “anos de promessas não cumpridas e metas abusivas”.
Durante o protesto, segundo relatos dos grevistas, dirigentes da empresa, incluindo o vice-presidente Daniel Beltrammi, teriam passado pelo local de forma desrespeitosa, o que intensificou a indignação.
Em resposta, a FENEPSERH divulgou Moção de Repúdio às declarações de Beltrammi:
“Tais afirmações, vindas de um dirigente de uma empresa estatal do porte da EBSERH, que conta com mais de 54 mil trabalhadores, revelam-se, no mínimo, inadequadas e desrespeitosas. Especialmente quando se considera que a mobilização da categoria tem como objetivo a garantia de melhores condições de vida e de alimentação para suas famílias — um direito legítimo e fundamental. Reiteramos nosso apoio aos trabalhadores da EBSERH e desejamos uma assembleia produtiva e democrática. Os Sindserh’s permanecerão ao lado da categoria, respeitando e apoiando as decisões coletivamente construídas pelos trabalhadores.”
Os grevistas reivindicam reajuste salarial real (pelo menos equivalente ao piso de 7% do salário mínimo nacional), vale-alimentação de R$ 1.500,00 com impacto efetivo em direitos trabalhistas e o fim do que consideram descaso sistemático.
Contexto técnico e histórico
Estudos sobre a gestão da EBSERH, como o artigo “O impacto da gestão EBSERH na produção dos hospitais universitários do Brasil” (publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, 2022), apontam ganhos de eficiência operacional desde a criação da empresa em 2011 pela Lei nº 12.550. No entanto, pesquisadores e entidades sindicais criticam que esses avanços não se refletiram de forma proporcional nas condições de trabalho e remuneração dos servidores.
A categoria ressalta que, durante a pandemia de Covid-19, os profissionais dos hospitais universitários foram chamados de “heróis” pelo poder público, mas hoje enfrentam o que veem como desvalorização.
A negociação segue em Brasília, com novas rodadas previstas no TST. Enquanto isso, a greve nacional continua, com a categoria unida na defesa de que a saúde pública de qualidade não se sustenta sem valorização real de quem atua na ponta do sistema.
FUNCIONÁRIOS DA EBSERH ESTÃO DE GREVE EM TODO O BRASIL, ELES SÃO OS GRANDES "GUERREIROS" NA LINHA DE FRENTE DA SAÚDE PÚBLICA DO PAÍS
