OS "VAGABUNDOS" DA GERAÇÃO Z E O ABUSO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
O fenômeno não é mero “excesso juvenil”. Estudos acadêmicos e relatórios institucionais alertam para um padrão comportamental facilitado pela democratização perigosa da IA generativa. Teses sobre grooming online e relatórios da FBI destacam o crescimento da sextortion: criminosos — muitos deles jovens ou atuando em redes que atraem adolescentes — usam deepfakes para chantagear vítimas, exigindo dinheiro ou mais imagens. O FBI liga esses esquemas a dezenas de suicídios de adolescentes nos últimos anos. Uma mãe de Kentucky perdeu o filho Eli após ele receber uma foto manipulada por IA exigindo US$ 3 mil; o jovem tirou a própria vida.
Marcello D'Victor
5/21/20263 min read


BRASÍLIA — Uma geração nativa digital que arma a tecnologia contra os inocentes. A "Geração Z", nascida entre meados dos anos 1990 e o início de 2010, cresceu imersa em telas, algoritmos e ferramentas de IA acessíveis. O que deveria ser sinônimo de inovação transformou-se, em muitos casos, em instrumento de destruição silenciosa. Jovens usam inteligência artificial para fabricar deepfakes, orquestrar assédios predatórios, forçar conexões falsas e arruinar reputações e vidas de pessoas inocentes com uma frieza técnica impressionante.
Relatos e dados oficiais pintam um quadro alarmante. De acordo com pesquisas da RAND Corporation, 13% dos diretores de escolas K-12 nos Estados Unidos relataram incidentes de bullying envolvendo deepfakes gerados por IA no ano letivo 2023-2024, com o percentual subindo para cerca de 20-22% em escolas de ensino médio. Casos como o de Francesca Mani, que ainda no ensino médio viu colegas criarem imagens pornográficas falsas com seu rosto usando IA, ilustram a brutalidade: meninas são as principais vítimas de “nudify apps” que transformam fotos inocentes em conteúdo explícito.
Na Louisiana, uma menina de 13 anos foi expulsa após brigar com colegas que circulavam imagens geradas por IA de nudez dela e de amigas — enquanto os autores muitas vezes escapam com punições brandas. O National Center for Missing & Exploited Children (NCMEC) registrou salto explosivo: de 4.700 relatos de material de abuso sexual infantil gerado por IA em 2023 para mais de 440 mil apenas no primeiro semestre de 2025.
Evidências científicas, teses e o preço humano da irresponsabilidade digital. O fenômeno não é mero “excesso juvenil”. Estudos acadêmicos e relatórios institucionais alertam para um padrão comportamental facilitado pela democratização perigosa da IA generativa. Teses sobre grooming online e relatórios da FBI destacam o crescimento da sextortion: criminosos — muitos deles jovens ou atuando em redes que atraem adolescentes — usam deepfakes para chantagear vítimas, exigindo dinheiro ou mais imagens. O FBI liga esses esquemas a dezenas de suicídios de adolescentes nos últimos anos. Uma mãe de Kentucky perdeu o filho Eli após ele receber uma foto manipulada por IA exigindo US$ 3 mil; o jovem tirou a própria vida.
Livros como Superintelligence, de Nick Bostrom, e relatórios da UNESCO sobre ética em IA advertem para os riscos existenciais e sociais quando ferramentas poderosas caem em mãos imaturas ou maliciosas. A doutrina jurídica evolui: estados americanos e países como Austrália e Reino Unido já criminalizam a criação e distribuição de deepfakes não consensuais, inclusive sintéticos. Pesquisas da Data & Society e Vanderbilt Law Review analisam como a “armação barata” de falsidades digitais erode a verdade e destrói a dignidade humana.
Depoimentos de vítimas revelam trauma profundo: ansiedade, depressão, isolamento e, em casos extremos, pensamentos suicidas. Predadores criam perfis falsos, forçam “amizades” rápidas via chatbots ou apps e escalam para manipulação emocional ou sexual. A sycophancy dos chatbots de IA — que validam excessivamente comportamentos danosos, conforme estudo de Stanford — agrava o problema: jovens encontram “aliados” artificiais que normalizam vingança, assédio ou isolamento social.
A Geração Z não é monolítica, mas uma parcela significativa internalizou a lógica de que “tudo é editável” e “nada é real”. Essa mentalidade, combinada com acesso irrestrito a modelos de IA sem salvaguardas eticamente robustas, produz uma nova forma de violência: invisível, escalável e de difícil remoção. Relatos de swatting (falsas denúncias à polícia geradas por voz sintética) e campanhas coordenadas de destruição reputacional mostram que o dano vai além do individual.
É urgente um debate maduro: educação digital obrigatória desde a escola básica, regulação rigorosa de ferramentas de IA generativa (com verificação de idade e rastreabilidade), responsabilização penal efetiva e uma cultura que valorize novamente a verdade, o consentimento e a empatia real — não a conexão artificial. A tecnologia não tem culpa; a irresponsabilidade de quem a empunha, sim. Ignorar esse lado sombrio é condenar inocentes a um futuro de vigilância constante e erosão da confiança social. O Brasil, com sua juventude conectada, não pode ficar alheio.


