CÉREBRO ADOLESCENTE É ALVO FÁCIL PARA ALGORITMOS DE REDES SOCIAIS, ALERTA NEUROCIÊNCIA

Imaturidade do córtex pré-frontal e hiperatividade emocional tornam jovens especialmente suscetíveis a recompensas instantâneas; carência afetiva familiar amplia riscos de grooming e dependência

Marcello D'Victor

12/11/20253 min read

Gazeta do Amapá — Edição Especial / Associação Nacional de Jornais (ANJ)

João Mancha — Palestrante, Especialista em Neurociencias e Análise de Discurso, Escritor, Produtor Cultural e analista de negócios do SERPRO / Instagram: @joaomancha.up

Brasília – Crianças e adolescentes passam hoje mais tempo conectados do que em qualquer outra atividade, inclusive no convívio físico com adultos. Estudos de neurociência mostram que essa exposição ocorre justamente na fase em que o cérebro é mais vulnerável a mecanismos de recompensa imediata projetados por plataformas digitais. Esse quadro complexo que marca atualmente a infância e juventude do Brasil, é explicada pelo especialista, João Mancha.

Pesquisa seminal da neurocientista americana Casey B.J., publicada em 2005, demonstra que o córtex pré-frontal – região responsável por controle de impulsos, avaliação de riscos e planejamento de longo prazo – só atinge maturidade plena por volta dos 25 anos. Durante a adolescência, predomina o sistema límbico, associado ao senso de pertencimento, a emoções intensas e busca de prazer instantâneo, o que gera liberação elevada de dopamina sempre que há curtidas, notificações ou desafios virais e ativa o sistema de recompensa cerebral. O adolescente também apresenta uma ativação muito forte quanto ao senso de pertencimento (sentir-se conectado, aceito e parte de um grupo, comunidade ou relacionamento). Para nossos ancestrais por exemplo, ser aceito na tribo significava proteção, alimento e chance de reprodução. Ser rejeitado ou excluído significava alto risco de morte.

“As redes sociais e jogos foram desenhados para dialogar diretamente com esse sistema límbico hiperativo, não com o pré-frontal ainda em construção”, explica o palestrante João Mancha, autor de best-sellers sobre inteligência emocional e criador do protocolo Homo Evolutio.

Na avaliação do especialista, os casos mais graves de exposição a predadores sexuais (grooming), desafios perigosos, ideação suicida ou dependência digital raramente começam na internet. “Geralmente há uma lacuna emocional pré-existente: falta de afeto, escuta ou pertencimento no ambiente familiar”, afirma. Nesses contextos, o jovem busca online a validação e a atenção que não encontra em casa – exatamente o que manipuladores oferecem de forma inicial.

Além dos riscos evidentes, Mancha destaca danos menos visíveis: isolamento progressivo, comparação social tóxica, distorção da autoimagem e humilhação pública em tempo real, fenômenos que configuram o que ele classifica como “sequestro digital”.

Controle excessivo ou proibição pura e simples, porém, tendem a agravar o problema. A proteção mais eficaz, segundo o especialista, depende do fortalecimento do vínculo afetivo e da presença emocional dos responsáveis.

Entre as estratégias recomendadas estão: substituir críticas por observações neutras que não ativem resposta defensiva; participar ativamente do universo digital do filho – assistir vídeos juntos, pedir explicações sobre jogos; criar rotinas fixas de conexão sem telas, como jantares em família ou conversas antes de dormir; negociar limites em conjunto, em vez de impor regras unilaterais; incentivar atividades ALTERNATIVAS que liberem dopamina de forma saudável: esportes, música, artes manuais; garantir ao adolescente que nunca haverá punição por relatar situações que o incomodaram ou machucaram.

Aplicativos de controle parental, como o Google Family Link, podem auxiliar, mas são considerados secundários diante da qualidade da relação familiar.

“Quando a casa oferece escuta genuína e presença afetiva, o jovem desenvolve raízes emocionais que funcionam como melhor blindagem contra qualquer corrente digital”, resume Mancha. Para ele, o sequestro digital não tem início na tela, mas na ausência de conexão no mundo real.

Instagram: @joaomancha.up

ESTUDO DO CERÉBRO HUMANO AGORA É PAUTA FUNDAMENTAL DO DESENVOLVIMENTO MULTISSETORIAL DO BRASIL