A COPA DO MUNDO COMO GRANDE NEGÓCIO GLOBAL

A Copa 2026 não será lembrada apenas pelos gols. Será o laboratório definitivo de como o esporte se funde ao entretenimento, ao marketing de dados e à geopolítica do consumo. Figo, Zidane, Ronaldo e Cristiano Ronaldo, cada um a seu tempo, ajudaram a construir essa engrenagem. Agora, cabe ao torcedor perguntar: até que ponto o espetáculo ainda nos pertence ou se tornou, sobretudo, um produto premium para quem pode pagar?

Marcello D'Victor

5/18/20264 min read

 Brasília, DF – A Copa do Mundo de 2026, que se aproxima nos Estados Unidos, Canadá e México, já não é mais apenas o maior evento esportivo do planeta. Transformou-se na mais sofisticada plataforma de negócios já montada pela FIFA. Com 48 seleções e 104 jogos, o torneio promete gerar para a entidade cerca de US$ 11 bilhões em receitas totais no ciclo 2023-2026, com o ano de 2026 sozinho projetado para algo entre US$ 8,9 bilhões e US$ 10,9 bilhões — um salto de mais de 50% em relação ao Qatar-2022. Patrocínios devem superar US$ 2,8 bilhões, direitos de transmissão ultrapassar US$ 4,2 bilhões e bilheteria/hospitalidade chegar perto de US$ 3 bilhões. Números que confirmam: o futebol deixou de ser um esporte que gera dinheiro para se tornar um ativo financeiro que, ocasionalmente, produz futebol.

A máquina comercial da FIFA atingiu maturidade plena. Todos os pacotes globais de patrocínio já foram vendidos em maio de 2026, restando apenas duas vagas regionais. No topo da pirâmide estão os FIFA Partners: Adidas (com a bola oficial), Coca-Cola, Hyundai-Kia, Visa, Qatar Airways, Aramco e Lenovo. No tier seguinte, específico da Copa, brilham AB InBev (Budweiser/Michelob), Bank of America, Frito-Lay (Lay’s), Hisense, McDonald’s, Mengniu Dairy (China), Unilever (Dove) e Verizon.

A geografia do dinheiro reflete o novo mapa do poder econômico. A Ásia e o Oriente Médio entram com força via Aramco (Arábia Saudita), Lenovo e Hisense (China), Mengniu e Qatar Airways. A Europa mantém Adidas, AB InBev e Unilever. A América do Norte domina o jogo em casa com Bank of America, Verizon, McDonald’s, Budweiser e Home Depot. O Brasil, embora sem sede, participa como grande consumidor e exportador de imagem: Itaú, Ambev, Nike (via CBF) e diversas marcas locais surfam na visibilidade global.

Essa internacionalização dos patrocinadores não é casual. A expansão para 48 times criou mais inventário comercial — mais jogos, mais minutos de TV, mais espaços para ativações. Marcas pagam dezenas de milhões de dólares por tier porque sabem que a audiência cumulativa deve superar os 5 bilhões de pessoas. O torneio não vende apenas cerveja, refrigerante ou chips: vende estilo de vida, pertencimento e, sobretudo, dados. As plataformas digitais (TikTok, YouTube, Instagram) transformaram o torcedor em alvo permanente de campanhas personalizadas.

As lendas do futebol entendem bem esse jogo. Ronaldo Nazário, o Fenômeno, viveu na pele a era da explosão comercial nos anos 2000, especialmente no Real Madrid dos Galácticos ao lado de Figo e Zidane. O brasileiro sempre reconheceu que o marketing elevou o patamar do esporte, mas também cobrou equilíbrio: “O dinheiro é importante, mas o campo decide o legado”. Zidane, por sua vez, personificou a elegância francesa que as marcas adoram — imagem sofisticada para produtos premium. Luís Figo, ídolo português, representa a geração que viu os contratos individuais decam para patamares astronômicos.

Cristiano Ronaldo é, claro, o caso mais extremo e bem-sucedido dessa fusão entre atleta e marca. Aos 41 anos (se chegar), CR7 disputa possivelmente sua última Copa. Ele transformou a própria imagem em império: Nike, Clear, CR7, hotéis, investimentos em health-tech e até participações societárias. Ronaldo entende que, na era atual, o jogador não é só contratado — ele é acionista da narrativa. Sua presença ou ausência na Copa de Portugal movimenta contratos, audiência e valuation de marcas. O mesmo vale para outros ídolos que viram embaixadores: o rosto de Ronaldo ou Zidane ainda vende mais que muitos jovens talentos anônimos.

O risco, evidente, é a excessiva financeirização. Ingressos caros, estádios gigantescos e foco em hospitalidade de luxo podem distanciar o torcedor comum. A FIFA combate o ambush marketing com rigor, mas não consegue (nem quer) esconder que a Copa virou um grande shopping a céu aberto. Budweiser promete “No Lay’s, No Game”; Coca-Cola e McDonald’s preparam ativações imersivas; Aramco associa energia fóssil ao sonho verde do futebol — ironias do capitalismo esportivo.

Para o Brasil, a lição é dupla. De um lado, a Seleção pode aproveitar a vitrine para valorizar jogadores e marcas nacionais. De outro, fica clara a distância entre a exuberância financeira da FIFA e a precariedade crônica do futebol brasileiro: CBF endividada, ligas fracas, dependência de ciclos de Copa. Enquanto a entidade suíça fatura bilhões, nossos clubes lutam para pagar salários.

A Copa 2026 não será lembrada apenas pelos gols. Será o laboratório definitivo de como o esporte se funde ao entretenimento, ao marketing de dados e à geopolítica do consumo. Figo, Zidane, Ronaldo e Cristiano Ronaldo, cada um a seu tempo, ajudaram a construir essa engrenagem. Agora, cabe ao torcedor perguntar: até que ponto o espetáculo ainda nos pertence ou se tornou, sobretudo, um produto premium para quem pode pagar?

Em um mundo de desigualdades crescentes, a bola rola sobre campos de grama sintética de dinheiro. O apito inicial está próximo. Que venha o show — e que o jogo, ao menos por 90 minutos, ainda consiga superar a máquina que o move.